Lutador conquista aprovação popular apesar das declarações desastradas.
Para psicanalista, 'brother' adotou estratégia do ‘homofóbico arrependido’.

Um machão agressivo, com péssimos modos à mesa e uma dificuldade em disfarçar inclinações homofóbicas se tornou o centro das atenções do “Big Brother Brasil 10”. Justamente nesta que foi celebrada como a “edição gay” do reality show, com a escalação de três participantes homossexuais.
Na terça-feira (2), o professor de artes marciais Marcelo Pereira Dourado, 37 anos, escapou do paredão pela terceira vez, em votação popular que atingiu a marca recorde de 92 milhões. E não foram apenas nessas ocasiões que o gaúcho de Porto Alegre contou com o apoio da audiência.
Em eleição na internet, o público concedeu a ele o poder de anular indicações dos colegas e, graças às suas articulações, dois adversários foram eliminados. Até o jogador Ronaldo revelou em entrevista recente que torce para que Dourado fature o prêmio de R$ 1,5 milhão do programa.
O ex-lutador de Vale Tudo, que enfureceu a militância gay com afirmações como “heterossexuais não pegam Aids”, tinha tudo para ser o campeão de rejeição do programa.
Como explicar então esse êxito do “brother” nos 52 dias de jogo?
“Dourado é o ‘homofóbico arrependido’. É grosseiro com os gays da casa, para em seguida pedir desculpas. Na maior humildade, explica que está aprendendo a ser tolerante e ainda finaliza o ‘deixa-disso’ com um abraço”, discorre o psicanalista Francisco Daudt, especialista em formação de personalidade e autor do livro “A criação segundo Freud”. “Com uma mão arremessa a pedra, com a outra oferece a rosa”.
O psicanalista se refere ao episódio no qual o rapaz afirmou que “sentia nojo” ao ouvir um bate-papo sobre baladas gays entre o estudante Sérgio e a jornalista Angélica. A dupla completa com o maquiador Dicésar o time dos “coloridos” – forma como os homossexuais são chamados na atração.
A atitude gerou reações acaloradas. Até o cantor britânico Boy George protestou em seu Twitter que "um homofóbico" podia vencer o "Big Brother" brasileiro.
“Não estamos fazendo campanha contra o Dourado, nem pedindo que votem pela saída dele”, explica Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), que divulgou carta aberta em repúdio ao lutador. “Só não podíamos deixar passar em branco as ofensas que ele fez à nossa comunidade em rede nacional”.
Déspota esclarecido
Apesar de classificar como “perigosas”, Reis não considera as “declarações desastradas” de Dourado como principal motivo de sua simpatia junto aos espectadores.
“O brasileiro não é homofóbico. Caso fosse, o Jean Willys nunca teria vencido o ‘BBB’”, considera o presidente da ABGLT, lembrando o professor baiano, gay assumido, campeão da quinta temporada do reality.
“O povão gosta de espontaneidade. E o Dourado fala as coisas sem pensar, inclusive bobagens”, diz Reis.
Daudt faz coro e aponta as supostas “tendências homofóbicas” como últimas das características da personalidade do lutador que chamam a atenção do público. “A humanindade é fascinada pela figura do ditador, do déspota esclarecido. E o Dourado encarna esse personagem do comandante, do ‘grande pai’ daquele grupo na qual impera a palidez”, podera o psicanalista.
“Nenhum dos participantes faz contraponto à personalidade forte dele. A Lia poderia ser uma opção, mas, sagaz que é, Dourado fez dela sua ‘aliada’, uma sombra em seu reino absolutista”, completa o especialista, mencionando a dançarina chorona da atração. Lia já conseguiu transformar em bordão popular a frase “olha pra mim”, com a qual pontua seus desentendimentos na casa do “BBB”.
Suástica
Mais velho de quatro irmãos, Dourado sempre procurou impor suas vontades em família e nos grupos sociais do qual fez parte, como conta o designer Márcio André Lops, amigo do lutador há 23 anos.
“Nos conhecemos em Porto Alegre, nas aulas de judô. Ele era o mais velho, o cara que puxava o aquecimento, dividia os grupos, ajudava o professor a demonstrar os golpes. Era um ídolo na turma”, conta Lops. “Isso às vezes pode ser mal compreendido na vida. Ainda mais no caso dele, que é uma bola de músculos, tem aquele jeito toscão de falar, o corpo todo rabiscado...”.
As tatuagens - em especial um símbolo cravado nas costas, que lembra uma suástica - foram alvo de polêmica no confinamento. O desenho causou espanto não apenas em Angélica, Sérgio e Dicesar, os “coloridos”, mas ao participante Michel, que é judeu.
O fato, que poderia soar como evidência da postura preconceituosa de Dourado, é explicado como “ignorância” por familiares. “Essa história foi totalmente distorcida por aqueles que se sentiram incomodados com ele. A suástica é um símbolo anterior ao nazismo, faz parte da cultura oriental milenar e simboliza o equilíbrio”, explica o antropólogo Ivan Dourado, irmão mais novo do lutador.
“Além do mais, o desenho é apenas um detalhe das vestes do samurai da 'tatoo'. É uma ilustração antiga, tirada de uma revista japonesa que ganhou de um aluno”, completa o irmão do "brother".
Fonte: G1








